Conversas reveladas em escutas da PF mostram entrega de propina para campanhas de Marconi

Operação investiga o recebimento de propina de R$ 12 milhões durante as duas últimas gestões de Perillo, em troca de favorecer empreiteiras em contratos.

Por Redação 05/10/2018 - 08:31 hs

Conversas registradas em escutas que integram o inquérito da Operação Cash Delivery revelam a entrega de valores superiores a R$ 1,2 milhão em propina da Odebrecht para campanhas de Marconi Perillo (PSDB) em 2010 e 2014, para o governo de Goiás.

Segundo a Polícia Federal, a transcrição da conversa envolvendo o candidato tucano ao Senado é um diálogo entre Márcio Garcia de Moura, que é policial militar e motorista de Jayme Rincón – também preso na Operação Cash Delivery – e um homem identificado como Márcio, outro PM funcionário do doleiro Álvaro José Novis, delator da Operação Lava Jato.

Leia o trecho da conversa obtido pela TV Anhanguera que cita o suposto R$ 1,2 milhão em propina:

Moura: Aí veio 3 mensageiros seus. É isso mesmo?

Márcio: É, um levou 7 e outro levou 5, Né?

Moura: Então tá certo, né?

Márcio: Isso. Aí faz um ponto dois. [segundo a PF, ele se refere a R$ 1,2 milhão de reais]


A distribuição da propina

O relatório da PF indicou que os policiais militares eram responsáveis por pegar o dinheiro de propina em São Paulo. E a entrega de R$ 1,2 milhão teria sido feita na Rua Hadock Lobo, na capital paulista, onde ficaria o apartamento Rodrigo Rincón, filho de Jayme e um dos presos da Operação Cash Delivery.

Numa das conversas registradas, a escuta mostra a ligação do motorista do doleiro para um outro motorista de Jayme Rincón, identificado como Sérgio, para confirmar o endereço do apartamento onde faria a entrega de “encomendas”, que a PF diz se tratar de propina.

Márcio: Oi, Sérgio. Meu nome é Márcio. Tudo bom?

Sérgio: Tudo joia!

Márcio: Tudo bem. Eu tenho umas encomendas aí para te entregar. Só confirmando contigo. Aí é 1259, 72 né?

Sérgio: 1259, 72 [segundo a PF, trata-se do número do prédio e apartamento Rodrigo Rincón]

Márcio: Aguarda aí que já estão caminhando para aí, está bom?

Sérgio: Tudo bem!


A Polícia Federal também investigou conversas via Skype, ligações de celulares e passagens aéreas dos PMs, saindo de Goiânia supostamente para buscar o dinheiro em São Paulo.

O MPF denunciou que as supostas propinas enviadas a Marconi Perilo foram de R$ 2 milhões em 2010 e R$ 10 milhões em 2014. O candidato a senador tucano é citado como líder do esquema; Jayme Rincón como braço-direito do ex-governador, responsável pela entrega do dinheiro solicitado pelo político; e o filho de Jayme, Rodrigo Rincón, teria colaborado diretamente com o recebimento do dinheiro, sendo beneficiário de parte dos pagamentos.

Os policiais militares Sergio Rodrigues de Souza (assassinado em janeiro de 2016 em Anápolis) e Márcio Garcia de Moura teriam transportado o dinheiro conforme pedidos de Marconi, assim como Pablo Rogério de Oliveira e Carlos Alberto Pacheco Junior. O MPF apontou que houve ao menos 21 entregas do dinheiro irregular em 2014 feitas a mando da Odebrecht para favorecer Perillo, em malas e mochilas.

Marconi fala

A defesa do ex-governador ressaltou que vê sentido eleitoreiro na deflagração da operação na reta final da campanha. E lembou que o ex-governador sempre esteve à disposição para prestar esclarecimentos sobre a delação conhecida há mais de um ano. E obteve junto à PF a liberação para prestar depoimento somente após as eleições.

O advogado de Perillo, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, publicou a seguinte nota:

 “A questão deve ser tratada e resolvida juridicamente na Justiça Eleitoral. O uso de fatos alegadamente ocorridos há 8 anos e 4 anos em plena campanha eleitoral revela o verdadeiro intuito da Operação, que provocou uma ilegal e indevida perseguição política ao governador que, como não poderia deixar de ser, está à disposição das autoridades e, como cidadão, é o maior interessado em esclarecer os fatos. A defesa alerta, há muito tempo, para os riscos de uma espetacularização do processo penal e da criminalização da política, que ataca e ofende pessoas de bem e comprometidas com o país. A democracia exige serenidade e responsabilidade. Ninguém está acima da lei, mas todo cidadão, político ou não, tem o direito de ver respeitada a Constituição da República, que garante a qualquer um o devido processo legal, a presunção de inocência, a ampla defesa e um julgamento justo”.

Os advogados de Jayme Rincón e do filho dele disseram à TV Anhanguera que estão trabalhando no caso e não vão comentar o assunto por enquanto. E o advogado do PM Márcio Moura ainda não se manifestou sobre o caso. (Com informações do G1 e da TV Anhanguera)